terça-feira, 27 de abril de 2010

ABYSSUS




                           
 Créditos. Da esq. à dir.:1- Pandore, par Jules Joseph Lefebvre, 1882, collection privée       2- O Nascimento de Vênus (recorte), de Bouguereau 3- ''Adam and Eva'' of '''Friedrich''' Maler '''Muller'''

ABYSSUS

 

Bela e traidora! Beijas e assassinas...
Quem te vê não tem forças que te oponha:
Ama-te, e dorme no teu seio, e sonha,
E, quando acorda, acorda feito em ruínas...


Seduzes, e convidas, e fascinas,
como o abismo que, pérfido, a medonha
Fauce apresenta flórida e risonha,
Tapetada de rosas e boninas.


O viajor, vendo as flores, fatigado
Foge o sol, e, deixando a estrada poenta,
Avança incauto... Súbito, esbroando,

Falta-lhe o solo aos pés: recua e corre,
Vacila e griata, luta e se ensangüenta,
E rola, e tomba, e se despedaça, e morre...


Olavo Bilac, 1865-1918

sexta-feira, 9 de abril de 2010

VILANCETE, lembrança inesquecível


     O texto a seguir é muito caro para mim, tive contato com ele no ano passado quando preparei algumas alunas presidiárias para uma apresentação teatral.

     Coordenei duas apresentações: um grupo representando Os dois turrões, um texto de Tatiana Belinky e o segundo grupo numa peça de teatro envolvendo o poema abaixo. As meninas se vestiram de montanhas, verduras, mar etc. Todas as participantes eram alunas presidiárias de alfabetização, tanto o ALFA 1 como do ALFA 2 e claro, não eram minhas alunas, mas foram minhas queridas aluninhas por uns dias hehe.

     Basta verem na íntegra a matéria sobre o concurso literário e o sarau que conteve as apresentações: http://www.funap.sp.gov.br/news_198.htm Apesar da baixa resolução que não permite visuialização mais adequada, a figura mais alta no fundo da foto em laranja sou eu. Já a última foto traz as garotas que fizeram parte da encenação que no fim teve a leitura do poema abaixo provando que não é só literatura marginal que faz sucesso nas cadeias.

Rommel Werneck




                                                      


VILANCETE


Adorai, montanhas,
o Deus das alturas,
também das verduras.

Adorai, desertos
e serras floridas,
o Deus dos secretos,
o Senhor das vidas.
Ribeiras crescidas
louvai nas alturas
Deus das criaturas.

Louvai arvoredos
de fruto prezado,
digam os penedos:
Deus seja louvado!
E louve meu gado,
nestas verduras,
o Deus das alturas.


 
Gil Vicente (Portugal 1465-1536)