domingo, 29 de maio de 2011

SEM RUMO - AZEVEDO CRUZ

SEM RUMO

Nesta barquinha audaz e temerária,
que a fantasia nômade carrega
pelos mares em fora, entregue à vária
sorte, a minhalma célebre navega.

Ferra o velame a viração contrária...
As brancas velas túmidas desprega;
e acompanhada pela procelária
foge, no azul, completamente cega.

Corta do mar a superfície vasta;
o vento agita o seu velame rôto,
e em convulsões no pélago se arrasta.

Mas vai por diante a gôndola veleira...
e, enquanto o teu amor for meu piloto,
a melhor vida é a vida aventureira.

1892

João Antonio de AZEVEDO CRUZ - Poeta Simbolista - nasceu em Campos a 22.07.1870. Era neto de escravos. Bacharel em Direito, foi Secretário de Estado do Rio de Janeiro e Chefe de Polícia, além de jornalista e exímio orador. Faleceu em Nova Friburgo, em 22.01.1905. Retirado do livro: Sonho, Poesias escolhidas, Coeditora Brasilica, Rio de Janeiro, 1943. (Pág. 35) - Soneto da Primeira parte do livro: I - versos da adolescência.

ALMA DO DIA - EMILIO KEMP

ALMA DO DIA

De manhã cêdo, mal o sol desperta,
Mal a noite se esconde no horizonte,
Naquella casa que se vê defronte,
Uma janella já se encontra aberta.

E surge, logo, uma cabeça esperta,
Que é como um novo sol que ali desponte,
Outro sol que fulgura; nova fonte
De estranha luz na luz do sol incerta...

É clarão, é sorriso que embriaga,
E pelo espaço sobe e se propaga
Como o perfume da manhã que nasce...

E maior esplendor o dia alcança,
Quando surge, à janella, tua face,
Tua linda cabeça de creança!

Emilio Kemp Larbeck Filho (Rio de Janeiro, 9 de outubro de 1874 - Porto Alegre, 9 de outubro de 1955) Médico, Poeta e Jornalista brasileiro. Pertenceu ao Movimento Simbolista. Grande poeta brasileiro, pena estar um tanto esquecido, e um dos maiores escritores do seu tempo. Destaque em sua obra para o Poema Épico: Os Turcos do livro Vesperaes. ALMA DO DIA foi retirado de Poesia, 2ª edição, Annuario do Brasil, Rio de Janeiro, 1924. (Pág. 146) - O soneto pertence à De Amores e Saudades, poemas que foram publicados em livro no ano de 1919 na 1ª edição de Poesia.

EM VIAGEM - ZITO BAPTISTA

EM VIAGEM

Na indolencia fatal desta vida de bordo,
A alma cheia do fel de atra melancolia,
Ouço em tudo o rumor de afflictiva elegia,
Emquanto os dias bons do passado recordo...

Muita vez, alta noite, em soluços, acordo...
Lá fóra a voz do vento, agoureira, sombria,
Anda a encher de pavor a alma da noite fria,
Cujo Mysterio ideal nos meus sonhos abordo...

Manso, o rio a rolar, tristonhamente, desce,
Reflectindo, por toda a extensão destas aguas,
A aurea trama que a lua entre as montanhas tece...

Deus! Que será de mim nesta viagem sem norte!
– Acordaram, de vez, todas as minhas maguas,
E esta saudade dóe como um frio de Morte...

Zito Baptista – Chamma Extincta, Rio de Janeiro, Edição do autor, 1918. (págs. 63 e 64) Raimundo Zito Baptista, poeta Piauiense, nasceu no povoado Natal, hoje município de Monsenhor Gil, em 16 de setembro de 1887. Adolescente, ele veio para Teresina com o irmão Jônathas Batista (1885 -1935), que depois se revelaria teatrólogo. Escreveu poesias desde moço. Fundou as revistas Cidade Verde Alvorada. Mais sonhador ou romântico que o irmão, Zito entregou-se de corpo e alma ao poder embriagante da poesia. Por essa época, em Teresina, uma mocidade sonhadora dominava a cidade. Poesias, crônicas, cartas amorosas e os acontecimentos sociais que pudessem trazer alegrias ou tristezas ao meio eram traduzidos em versos por jovens poetas que se iniciavam em literatura. Faleceu no Rio de Janeiro, em 1926. Amigo dos poetas Antônio Chaves e Celso Pinheiro, com eles es­treou em livro em 1909, com  coletânea Almas Gêmeas, cabendo-lhe a parte sob o título Pedaços do Coração. Monólogo de um cego é o seu poema mais conhecido. (Retirei do portal de Antonio Miranda – www.antoniomiranda.com.br – sua biografia, porque foram os únicos dados que obtive do poeta. Chamma Extincta não traz detalhes de sua vida.)

TÚMULO - NARCISO ARAUJO

TÚMULO

Um dia a morte, cega, inquebrantável, treda,
que distribui o frio a cada sepultura,
com esse frio há de vir, vagueando, à procura
de teu seio floral, de teu corpo de seda.

Ela há de ir, caçadora impiedosa e segura,
cega, mas sem errar, pela única vereda
que a ti se vai, por essa estrada azul de leda
que eu de sonhos junquei e o meu sonho emoldura!

Então, nessa hora fria, ó minha divindade,
dos meus sonhos farei um caixão branco e leve,
perfumado de amor, orvalhado de saudade,

e em versos alçarei o teu caixão bonito,
para guardar teu corpo – imaculada neve –
no seio de uma estrela, a luzir no infinito...

Narciso AraujoPoesias, 1ª Série, Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1942. (págs. 128 e 129). Extraído da 2ª parte (poemas escritos entre 1916 e 1930). Poeta simbolista do Estado do Espírito Santo, nasceu em 6 de agosto de 1877 e faleceu em 16 de abril de 1944. Viveu parte da vida no Rio de Janeiro, onde, foi aluno exemplar do Colégio Pedro II. Trabalhou no Rio de Janeiro até sanar as dívidas comerciais de seu pai. Voluntariamente, se exilou, após, sanadas as dívidas, sendo até Deputado do Congresso Estadual do Espirito Santo, onde sua consciência ficou desiludida. Após, regressou para sua cidade Natal: Cachoeiro do Itapemirim, no seu tempo uma pequena vila, vivendo uma vida simples e poética. Recebeu em vida o título de Príncipe dos Poetas Capixabas. É conhecido em nossa Literatura como: o solitário do Itapemirim. Um dos maiores sonetistas do Brasil. Foi amigo de Raul Pederneiras, Félix Pacheco, Cruz e Sousa, Nestor Victor e outros grandes poetas de seu tempo.

"Livro do nosso amor que tem hoje a encantá-lo," Paulo Silva Araújo

 “Livro do nosso amor que tem hoje a encantá-lo,
Divino e espiritual o seu desinteresse...
Livro confessionário em que à tua alma falo
Na graça de uma rima e num sabor de prece...

Ponte feita de ideias que transpõe o valo
Que a morte assim julgou que entre noivos fizesse...
De um sol que se apagou a qual dourado halo
Que a mais trevosa dor nem de leve escurece...

Regaço de poesias em que o pranto estanco,
Deixo nele a minh´alma, em luminoso rastro
Quebrando a escuridão desta minha viuvez...

Oh! livro de marfim, meu livro todo branco,
Livro que és para nós, a igreja de alabastro
Em que vamos casar pela segunda vez...”

1912

Paulo Silva Araujo - do livro Segundas Núpcias - inédito. In: Poesias, Edição comemorativa do 50º do aniversário de sua morte, Rio de Janeiro, Tipografia Baptista de Souza, 1968. (pág. 104) Poeta Simbolista e Médico fluminense nascido em 23 de julho de 1883 e falecido em 22 de outubro de 1918. Pertenceu ao grupo de Saturnino de Meireles, onde juntos, editaram a revista Rosa-Cruz, a partir de 1904. Era amigo de Catulo da Paixão Cearense, João do Rio e Chiquinha Gonzaga, que musicou alguns de seus poemas.

TUA BOCA - VALENTIM MAGALHÃES

TUA BOCA

Cheguei! Não me esperavas. A surpreza
Accendeu a alegria em teu semblante;
Do teu trajo caseiro a singeleza
Tornava-te mais bella e fascinante.

Confundida ficaste, no entretanto,
Porque te achei num casto desalinho;
E eu contemplava cada novo encanto
Que tinhas no aconchego do teu ninho.

Sahiste um pouco, e então, no quarto, ao lado,
Senti que um frasco de crystal abrias.
Teu cabello, ao voltares, mais cuidado
Estava, e um fino aroma rescendias.

Pedir a rosa olor ao jasmineiro!
Pois foi o que fizeste, minha louca,
Como se houvesse, por ventura, um cheiro
Mais agradavel que o da tua boca!

Janeiro – 17 – 1888.

Valentim Magalhães - Rimas de Amor. In: Rimário (1878 – 1899), Paris, Aillud & Cia. Editores, 1900. (pág. 71) - Poeta Parnasiano nascido em 16 de janeiro de 1859 e falecido em 17 de maio de 1903. Jornalista e Escritor foi um dos fundadores da ABL (Academia Brasileira de Letras), tendo participado da “Batalha do Parnaso”, uma reação contra o romantismo literário. Sua obra mais conhecida foi o romance: Flor de Sangue, escrito em 1897.

SOLAU - DÁRIO VELLOZO

SOLAU***
Dário Vellozo

Eu sou o pajem de Dona Morte,
Loura de olhos monacais;
Eu rezo salmos a Dona Morte,
Sou o coral das catedrais;
Nos meus idílios flavesce a morte,
A morte - o vinho das bacanais.

Volvei os olhos de esperança
A um cavaleiro Rosa-Cruz;
Os vossos olhos de esperança
São liras de ouro, alvas de luz;
São pulvinários de esperança,
Valquíria astral da Rosa-Cruz.

No cinerário de meus sonhos
Arderam Silfos e Quimeras;
Em que sepulcros andam meus sonhos,
Ó peregrinos de outras eras?
Noiva, - sepulcro de meus sonhos,
Crisoberil das primaveras,

Eu sou o pajem de Dona Morte,
Entrei castelos e solares;
Seguindo os passos de Dona Morte
Subi a torres de sete andares.
Os belvederes de Dona Morte
Andam suspensos de meus olhares.

Andam suspensos de minha boca
Os nove arcanos da Alquimia;
Nos setiais de minha boca
Rezaram monjas noite e dia;
Jamais oscules a minha boca
Estrela da Alva da Nostalgia!

Deixa que mortos enterrem mortos,
Loura de olhos monacais;
A morte embala meus sonhos mortos,
Nas absides das catedrais;
A morte é a noiva dos sonhos mortos,
A morte é o círio das bacanais.

Deixa que mortos enterrem mortos,
Loura de olhos monacais!

Curitiba, agosto de 1898.

Dário Vellozo. Cinerário e outros poemas, Curitiba, Coleção Farol do Saber, Gráfica Lítero-Técnica, 1996.(págs. 156 e 157)

*** Solau - Composição bem antiga, da época anteclássica renascentista, de caráter melancólico e habitualmente acompanhada por música. Autores que a cultivaram: Bernardim Ribeiro,Sá de Miranda, Jorge de Vasconcelos, Gonçalves Dias, Almeida Garret, Carlos D. Fernandes (simbolista brasileiro). Poetas modernos como Manuel Bandeira e Mário Quintana, também, escreveram poemas com o título de Solau. (Informações retiradas do livro: Teoria Literária do Professor Henio Tavares - Editora Vila Rica, Rio de Janeiro/Belo Horizonte, 11º edição, 1996 - Págs. 302 e 303.)

Alguns solaus que conheço:

1) “Pensando-vos estou, filha,” - Bernardim Ribeiro - Século XVI (Classicismo);

2) Sextilhas de Frei Antão (Soláo do Senhor Rey Dom João e Soláo de Gonçalo Herminguez) - Gonçalves Dias;

3) Frei Luis de Sousa - Almeida Garret;

4) Solau à Moda Antiga - Mário Quintana;

5) Solau do Desamado - Manuel Bandeira (1943) - letra de música;

6) Solaus - Livro de Versos de Carlos D. Fernandes editado pela H. Garnier, Rio de Janeiro, Paris, [s.d] - livro raro. Soube de sua existência por causa de um catálogo de livros à venda que aparece no Livro Poesias de Goulart de Andrade, da mesma editora, do ano de 1907. 


Sobre Dario Vellozo: nasceu no Rio de Janeiro e mudou-se para Curitiba em 1886, cidade em que veio a desenvolver praticamente toda sua obra. Trabalhou no jornal Dezenove de Dezembro, cursou o Partenon Paranaense e o Inst. Paranaense. Em 1909 fundou o Instituto Neo-Pitagórico (numa construção imitando Templo da Grécia antiga - chamado de Templo das Musas) baseado em sua filosofia helênica que buscava revivências da festa da primavera. Foi fundador do Grupo Cenáculo junto com Antonio Braga, Silveira Neto (pai de Tasso da Silveira) e Júlio Pernetta (irmão de Emiliano Pernetta), principal grupo de poesia do Estado do Paraná. Editava ele mesmo seus livros e os anais do Instituto. Discípulo de doutrinas ocultistas, lia e divulgava as obras de Swedenborg, Saint-Martin, Papus, Stanislas de Guaita, Fabre d’Olivet, além do satanismo de Huysmans, a poesia simbolista em geral e Dante Alighieri. Tinha sempre em alta conta a poesia de Verlaine, Mallarmé, Baudelaire, Eugênio de Castro e Cruz e Sousa. Fundou a revista O Cenáculo (1895-1897) e participou de várias outras: Revista Azul, Esfinge, Ramo de Acácia, Pitágoras, Brasil Cívico. Obras: Poesia: Efêmeros (1890); Esquifes (1986); Alma Penitente (1897); Hélicon (1908); Rudel (1912); Cinerário (1929); Atlântida (1938).
Parte da biografia de Dário Vellozo retirei do site: Orfeu Spam - http://www.jayrus.art.br/Apostilas/LiteraturaBrasileira/Simbolismo/Dario_Vellozo.htm - vale um passeio por lá para ler outros poemas do poeta.
  

quinta-feira, 26 de maio de 2011

"Excitam-me o jogar em mim mil pedras,/ O tilintar de pálidas moedas,"





CABARÉ



Do crepúsculo a cada gris manhã
Surge ornado de almíscar, nobre sândalo,
Dançando um negro e fúnebre can can
Um homem que tem como nome escândalo!


Embalsamai-me grã-luxúria irmã
E mostrai meu ar fino, sutil vândalo,
Defunto colossal, curto Titã,
Eu, cujo sobrenome é Bravo Escândalo!


Excitam-me o jogar em mim mil pedras,
O tilintar de pálidas moedas,
O grande manto púrpuro de luto.


Um funeral se mostra nos vis lodos,
Porque de tudo, todas e de todos
Fui livre e vagabundo prostituto!



 Rommel   Werneck

domingo, 22 de maio de 2011

BELLE ÉPOQUE - Antero de Quental




MAIS LUZ!

(A Guilherme de Azevedo)


Amem a noite os magros crapulosos,
E os que sonham com virgens impossiveis,
E os que inclinam, mudos e impassiveis,
Á borda dos abysmos silenciosos...


Tu, lua, com teus raios vaporosos,

Cobre-os, tapa-os e torna-os insensiveis,
Tanto aos vicios crueis e inextinguiveis,
Como aos longos cuidados dolorosos!


Eu amarei a santa madrugada,

E o meio-dia, em vida refervendo,
E a tarde rumorosa e repousada.


Viva e trabalhe em plena luz: depois,

Seja-me dado ainda ver, morrendo,
O claro sol, amigo dos heroes!


Antero de Quental

sexta-feira, 20 de maio de 2011

SELO KREATIV BLOGGER AWARD



Primeiramente, peço desculpas pelo atraso um mês deste post.


Enquanto termino o texto sobre a Belle Époque (olha o atraso de um mês!) descubro algo fascinante! Nossa leitora Andressa do blog Monólogo das Emoções  indicou um selo para o Poesia Retrô, aliás, nosso primeiro selo (na verdade, o primeiro selo era um que recebemos ainda em 2009, mas eu não gostara do selo).


As regras para a validade deste selo são:


A- Publicá-lo deixando visível no blog e postar as instruções

B- Indicar mais dez blogs para este selo





C-  Avisar os blogs escolhidos.


D-  Falar dez coisas sobre mim


1- O blog Poesia Retô fui fundado em março de 2009 por Rommel Werneck e Gabriel Rübinger. Os primeiros participantes eram também do antigo fórum do Recanto das Letras.

2- O I E-book de Poesia Retrô foi lançado em junho do mesmo ano.

3- O endereço original do blog era ...poesiaretroapoesiadesempre.blogs.... Em agosto de 2009, por sugestão do escritor e membro Mensageiro Obscuro, a url foi convertida no endereço atual.

4- O projeto da coletânea de áudios não rolou (hahahaha)
5- Assim que foi fundado, o autoretrato de luvas de Albrech Dürer foi eleito como símbolo do grupo pioneiro em releituras histórico-literárias, o blog que pretendia resgatar as glórias da poesia clássica. Sendo assim, pode-se considerar o célebre renascentista como Solene Patrono.
6- No final de 2010, uma nova capa do blog foi elaborada por Gabriel Rübinger exibindo o pintor alemão e 8 escritores: Safo de Lesbos, Charles Baudelaire, William Shakespeare, Luís Vaz de Camões, Gregório de Mattos, Olavo Bilac, João da Cruz e Sousa e Álvares de Azevedo.

7- De março a maio, foram elaboradas capas diferentes em comemoração aos 2 anos e homenageando os escritores patronos.

8- Os parceiros do Poesia Retrô são de várias artes e campos, mas todos com o objetivo de reconstruir algo. Podemos citar o Moda de SubCulturas, o Casa do Maker, a Comunidade Literária Benfazeja, o Geleiras, dentre outros blogs/ sites de extrema qualidade. 

9- Os dois fundadores têm predileção pela cor roxa e apesar de parte do layout do blog ser desta cor por muito tempo, somente após um ano um deles descobriu a cor favorita do outro (o mais sensato já sabia)

10- Recentemente foram elaborados posts sobre as escolas literárias.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

POSSIBILIDADES DE RELEITURA DA BELLE ÉPOQUE/ PARNASIANISMO



    Assim como fiz no Romantismo, teço aqui algumas considerações sobre como reconstruir a presente escola literária. Percebi que estamos diante de um trabalho muito interessante porque uma releitura do Parnasianismo combinaria muito com nossa época em que também vivemos um preciosismo da imagem, as novas formas fixas etc

    O post é bem rápido porque penso eu que a próxima Roleta Russa e o post sobre a Belle Époque já servem como referências.


Preferência pelas formas fixas e versos regulares


Uma releitura tradicional consiste em compor sonetos alexandrinos. Passados mais de 100 anos, é possível, hoje, escrever em outras formas fixas, inclusive, formas fixas modernas. O contato com formas fixas pouco conhecidas é algo a ser descoberto para fazer uma releitura da Belle Époque.

Já imaginou a possibilidade de escrever um indriso alexandrino em características parnasianas, um FIB? Um sonetim? Eu tenho feito experimentações em indrisos e sonetos com versos de 14 sílabas com as cesuras da gaita galega (4ª, 7ª, 10ª e 14ª). Quem sabe você pode se dar ao luxo de escrever sua própria forma fixa!

Invista nas rimas ricas, cavalgamentos e particularidades métricas abordadas no texto sobre o Parnasianismo




Mitologia greco-romana e descritivismo


Muitos de nós possuímos uma devoção por mitologias fora do círculo clássico greco-romano, é interessante investir nas mitologias nórdica, egípcia, indiana e outras descrevendo personagens e fatos com uma reflexão no fim (chave de ouro)

Você deve conhecer o que está escrevendo, isto significa também estudar e ler as releituras já feitas, analisar a sonoridade dos nomes, a separação das sílabas...

Nas descrições, evite cores. Elas são mais comuns no Simbolismo. Prefira referências da origem do objeto estudado como “vaso do tempo dos deuses gregos”, “mulher das arenas romanas” etc , referências físicas e tudo que fuja do imaterial e espiritual, aspectos reservados para  a outra escola.





A arte pela arte


  A arte deve ser feita para a glória do próprio fazer artístico, a arte serve para a própria arte. Convido a relerem Quadro Artístico inserido no blog. Você pode escrever um poema sobre arte, a poesia dominando seus leitores, a metalinguagem.


Emoção contida

   A emoção deve ser discreta, nada de devaneios pelo passado greco-romano ou associar o vaso chinês à namorada. Escreva em terceira pessoa. Este primeiro passo pode ajudar a você se nortear. 



  
ALGUMAS  RELEITURAS

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A formiga

Percorre solitária o distante caminho,
em passos, trafegando... Ora, ela nunca enfada!
Pára. O destino é outro àquela caminhada,
afinal, achou um graveto para o ninho.

E segue, a luta agora é mais do que pesada,
lavanta, entre manobra, o peso em desalinho,
o corpo sofre, pois é tão pequenininho,
mas no levantamento aguenta tonelada!

Mais à frente, consegue ajuda para o encargo!
Já não sofre tanto e a velocidade aumenta.
E elas vão girando e levando em passo largo

o que seria para alguns uma tormenta!
Naquela agilidade... Ó! Que destino amargo,
o formigueiro não encontram, a pá cimenta!

Parnaíba, 18 de fevereiro de 2009.

DANIEL C. B. CIARLINI




CONTEMPLATIVO


Num lugar espectral reza um cartuxo,
Em silêncio sublime lá na cela...
Uma imagem tão simples e sem luxo:
Contemplar a Palavra santa e bela!


Entoa um canto nosso irmão capucho,
Irradiando a gélida capela...
Ícone que recrio e que o repuxo
Num soneto sem dor ou vil querela!


Os livros que viraram seu sacrário...
Segue lendo sonhando solitário,
Talvez tenha um passado assim lascivo...      


Contudo fica ali contemplativo,
Sem remorso ou sutil medo infortuno
O monge simples da Ordem de São Bruno.

                                                          
Rommel Werneck


O RETORNO DOS DEUSES
Filipe Cavalcante

E num instante, tudo interrompido.
Tudo parou, calou-se, viu, ouviu...
Segundo antes de tudo acontecido...
Sentindo o espanto,
quem reagiu?

Calou-se o vento, as nuvens se quedaram,
o farfalhar das árvores parou.
Aves, leões, serpentes se aquietaram.
Cada animal
Observou

Aquietaram-se os mares revoltosos
e cessaram as ondas do oceano.
Os navegantes, meio temerosos,
sentiram algo
de sobre-humano

Nos campos e cidades a inquietude
da vida humana em louco movimento –
máquinas, força, gente – por virtude
do acontecido
cessa um momento.

E num relâmpago que não saído
havia de qualquer nuvem, o mundo
viu luz maior que o Sol. Foi tão comprido
de luz de glória
esse segundo!

E então veio o trovão, e aquele estrondo
se ouviu por todo o mundo – céus e terras.
Soou mais do que todos juntos pondo,
mais do que as forças,
mais do que as guerras.

Todo olho viu e todo ouvido ouviu.
Os homens todos a fitar o céu.
E toda criatura em si sentiu
que algo lhes vinha
de trás de um véu.

E veio: o céu se encheu de um ribombar
como o som de um tropel de cavalgada.
Nos corações aquele reboar
dava em visão
glória passada.

O céu se abriu, e então se pôde ver
com os olhos de corpo e alma, enquanto
reluziu no íntimo de cada ser
um regozijo
feito um espanto.

Brandindo um raio, vinha à frente Zeus,
montado em seu corcel descomunal.
Se via pelo olhar do grande deus
que vinha para
vencer o mal.

Os mares pareceram se alegrar
ao ver depois surgindo Poseidon.
E ao ver, em seu cavalo, Hades passar,
tudo soou
funéreo tom.

Mas logo veio atrás a sábia Atena,
armada já pras lutas e pras glórias.
De perto segue-a Hera. Assim se acena:
poder, riqueza
seguem vitórias.

Depois, belíssima, Afrodite vem;
e o jovem Eros segue a mãe, voando.
Atrás vem Ares, belicoso, e tem
no seu semblante
o horror nefando.

E vem Apolo, e o filho Orfeu, e o doce
coro das nove Musas junto deles;
e há nesses cantos algo qual se fosse
toda a Poesia
contida neles.

Toda a corte dos deuses se seguiu,
das eras do passado ressurgida.
Aos tempos, obscura, resistiu,
e ora retorna
grande, reerguida.

Tremeu o mundo. O Olimpo então brilhou
e tudo vicejou em derredor.
A luz ao mundo todo clareou,
humano e divo
fulgor maior.


Ah! se dissipam logo os vãos temores!...
Por que temer? Isto é que sempre ansiamos!
Eis a resposta aos nossos sãos ardores!
Por que temê-lo?
Nós o esperamos!

Eis a resposta à nossa sede, enfim,
de alçar grandeza, ter saber, ver glória.
de ter virtude sendo humano, e assim,
poesia livre
do que há de escória!

E que temor os outros deuses ronda! –
os que há na terra, sobre os vãos altares.
Imagens treme a pavorosa onda,
justa vingança
dos milenares.

Por que por tanto tempo, templos vãos,
ao vosso peso os homens só curvastes?
Por que é que os desprezastes como a grãos
pelo bom Deus
que vós pregastes?

Fora ide, templos vãos, deuses imigos
do que há de grande e humano, de sublime
e livre. Longe vão vossos perigos
e o hábito vosso
de enxergar crime.

Nos templos se ouve a voz do Olimpo em brados.
Com as mãos sobre as faces em segredo,
à cava luz, entre os vitrais sagrados,
fogem imagens,
tremendo em medo.

E a luz que há sobre o Olimpo, redentora,
faz tudo ser de novo tão fecundo.
O homem é homem pela salvadora
corte dos deuses
reinar no mundo.

 

O Acender da Pira

Gabriel Rübinger


Desfraldam-se as nuvens altaneiras
no glacial brancor da antiga Roma,
e um vate colhe a ode, e do ar toma
as brumas soniais das oliveiras...

O escravo faz coroas derradeiras,
e as põe no altar de fora, onde o aroma
que invade tristemente o bosque assoma
os mármores, as folhas, as roseiras.
 
O Sol atrás morrendo. A tarde expira,
no esmaecer de sombras, de falenas
dançando flébeis, no calor da pira.
A terra cobre o corpo, e as serenas
estrelas lacrimejam. Resta a lira,
tangendo até o chorar das açucenas...