quarta-feira, 18 de abril de 2012

... ET IN PÚLVEREM REVERTÉRIS





Meménto homo, quia pulvis es, et in púlverem revertéris.”
Missa de Quarta-Feira de Cinzas



Depois da orgia estava embalsamado
Entre rubros lençóis o efebo só.
Nos seus sonhos estava ali deitado
À rigidez da carne, ao brilho em pó.


A carne nua em brilho de brocado
Era beleza simples e sem dó
Fisgava o sábio grego apaixonado
P’ra tatear de novo a carne, o pó...


Que corpo glacial! De luz, dormente...
E que sangue nobre! Pálido rubor...
E, pondo as mãos no peito intensamente


Do lívido rapaz dos cemitérios
Já não tinha na Terra mais fulgor...
Era agora um deus grego em céus etéreos...



Rommel Werneck
Enviado por Rommel Werneck em 18/04/2012
Código do texto: T3619124
 Escrito em 2011

                                                                

domingo, 15 de abril de 2012

CHALAÇA

Retrato de Francisco Gomes da Silva, o "Chalaça", conselheiro do imperador Pedro I em todos os assuntos
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(A Ronan Lúcio Fernandes)

 

Nos becos da malícia alegre, o conheci,
nas noites de taverna. Ao bom viver afeito,
cultor do vinho, amante às mulheres, ali
eu ganhei a amizade ao bon-vivant perfeito.


 Ao meu paço eu o trouxe, e ele caminha aqui
de mim somente abaixo, entre a pompa. E a despeito
dos membros da nobreza e do poder, senti
que ele é que na verdade é meu braço direito.


 Pois, que intuição de amigo entende o que tu queres
e tudo facilita, as noites, as mulheres?
Só meu amigo sabe o que passa comigo.


 Tão próximo de mim, chegado a minha graça
mais do que outro nenhum fora – meu bom Chalaça!
Toda porta se me abre em frente ao meu amigo.
 


 Filipe Cavalcante
21.10.2010
02h49min

quarta-feira, 11 de abril de 2012

ADEUS!




"E por que viver se o coração é morto? Se eu
hoje dormisse sobre essa ideia, se eu
pudesse adormecer no
ócio e no tédio, seria isso ainda viver?
Álvares de Azevedo



Adeus, meus sonhos! Adeus, meu amor!
Pra fenecer minh'alma triste chora,
Ora apagou-se-me o fulgor doutrora,
Cobre-me a face, angelical palor.

Adeus, maldito spleen! Adeus, langor!
Uma sombria e fria dor me aflora,
Sem nostalgias, partirei agora,
Entristecido como murcha flor.

Quando jazer entre sepulcros, quedo,
Sentir-me-ei outra vez deveras ledo,
Morrerá a dor atra que a mim domina...

Quando pro inferno me levar Satã,
Não lacrimeis por minha vida vã,
Olvidai esta desgraçada sina!

(versos decassílabos, ritmo sáfico)

domingo, 8 de abril de 2012

Soneto marginal retrô






GAROTO DE ALUGUEL



E esta boca com gosto de cigarro?
E este batom com cheiro de motel?
Tudo isto que parece ser bizarro
É na verdade o mais florido céu!


E estas costas repletas de água e barro?
E este peito tão áspero e cruel?
Eu vomito aguardente de catarro
Com meu simples garoto de aluguel...



E este coração tão seco e tão duro?
Que nem mesmo respira, pulsa ou bate
Que mais parece caixa de amianto?!


E este puto com cara de anjo e santo
Que na esquina, na vida, no combate
Enfrenta novamente seu futuro?


Rommel  Werneck 


NOTAS:


2- Soneto em decassílabos heroicos sob inspiração baudeleriana. Um soneto marginal, porém na poesia de sempre, isto é estudar possibilidades...


sexta-feira, 6 de abril de 2012

Meus primeiros octossílabos







COMO O PRIMEIRO



"Come Prima (Dalida chante)"


Como o primeiro namorado
Ela me beija e leva rosas
E eu beijo as suas mãos cheirosas
Que tanto tenho venerado!




Como o primeiro ela me trata
E escreve versos de marfim
Em que promete amor sem fim
Numa sublime serenata...


Como o primeiro que foi dela
Assim me sinto possuído...
E quando a beijo, peço que ela




Cumpra os seus planos por inteiro
De me tomar como marido.
Como o primeiro... seu primeiro!


Rommel  Werneck

Publicado originalmente no Recanto das Letras
Acesse minha escrivaninha


NOTAS:


1- O poema foi inspirado na música Come Prima (Como Antes) cantada pela cantora egípcia Dalida.  Eu escrevo majoritariamente ao som de música. Escute AQUI.

2- Nunca tinha escrito nessa métrica, acho difícil métricas abaixo de 9 sílabas.


3- O Ivan Eugênio da Cunha fez um belíssimo soneto no mesmo metro. Leia AQUI.



4- Usei temática amorosa, mas como sempre sofremos críticas vanguardistas "o amor é ultrapassado", eis aqui um soneto em que o homem se sente o primeioro de uma mulher propondo uma inversão de papéis, é plenamente possível escrever de outras formas. Estudo de possibilidades, experimentação, é disso que a poesia contemporânea necessita.