terça-feira, 20 de novembro de 2012

Em gregoriano anapéstico

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A PAPAI

Papai, leva-me aos parques da infância,
Aos saudosos jardins da inocência,
A essas árvores cuja distância
Apagou o perfume da essência...

Eu preciso nadar na fragrância
Das passadas lagoas da Crença
Da criança assistida em constância
Aspirando às lições da decência...

A Grande Árvore gris da Ciência
Me mostrou a maçã da ganância
E queimou os rosais da prudência...

Papai, desce e me abraça em clemência
E seguindo os teus passos em ânsia,
Subiremos os dois à Inocência.

                                                   Rommel Werneck

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Lúgubre Saudade




Lúgubre Saudade

Ai de mim, teus lábios são frios!
Mudos, também.
Teu amor, onde
Se esconde?
Roubou-mo quem?
GOETHE, Fausto

Pranteio ao sentir saudade
Da tão pura mocidade,
De quando estavas comigo,
E andávamos p'lo fúnereo
E venusto cemitério
Que agora tens como abrigo...

Vivíamos só de amor,
Nada era escuro ou sem cor,
As flores tinham perfume,
Na Natura havia encanto,
Era em vão o ardente pranto...
Até sombrear-se o lume!...

Dantes de partir, disseste,
Com voz mui doce e celeste:
"Amor, não é triste a morte,
Não chores minha partida,
Chora a vida não vivida,
Esta é a mais triste sorte."

Tentei crer em tais palavras
Que suavemente falavas,
Mas cobriu-me a palidez
Assaz lânguida e sombria
Da eternal melancolia
E a alegria se desfez.

Oh! Quando enfim te esvaíste,
Não houve noite mais triste!
Tornei-me errante e sozinho...
Tal fel me exauriu! Só eu sei
Quantas lágrimas chorei,
Afogado em spleen e vinho...

Ah, a vida já é tão curta
E a dor tempo inda me furta...
Porém, isto não importa!
Que eu beba o último hausto
E logo, pereça infausto,
Pois minh'alma já está morta!...

Renan Tempest

Desventura





Desventura

Brilham no céu as estrelas da morte,
Volvo os olhos lôbregos para a Lua,
Percebo-a
prantear a triste sorte
De minha dor tão sua...

Ó Lua, resplende em meu coração
Como nas noites de outrora fizeste!
Passemos nossa última solidão
Com teu brilho celeste!...

Não me lamentes o vago padecer
P'lo entristecer de tal negro destino
Nem chores meu derradeiro planger
Qual um triste violino!...

Choremos as flores mortas das trevas,
Bebamos vinho entre gélidas cruzes...
Oh! eu morro, ó Lua, enquanto te elevas
E no escuro reluzes...

Já sinto a Morte fria e taciturna
Fitando-me a lânguida palidez.
Ceifa-me a alma, ó bela visão nocturna!
Leva-me de uma vez!

Renan Tempest

Devaneio




E eu acordei... que delírio!
Eu sonho findo o martírio
E acordo pregado à cruz!
Álvares de Azevedo

Devaneio

Ora desperto tristonho...
Que sonho tive! Que sonho!...
Sonhei que tu me sorrias
Numa noite fria e escura,
Sorrias deveras pura
Por entre campas sombrias...

Juntos em um cemitério,
Teu olhar doce e cimério
Me enlevava o coração;
Tua inefável beleza,
Ornada em sutil tristeza
Alumbrava a escuridão.

Oh! donzela, meu amor,
Eras a mais linda flor
Daquele negro jardim,
Tinhas o brilho da Lua
No palor da pele tua
E na alma um amor sem fim;

O meu coração gelado,
Era, aos poucos, aquentado
Por teus suspirosos beijos,
Beijos ardentes de amor...
Ah! e com morrente langor
Fazias os teus gracejos!

Cada vez que te beijava,
Minha face se descorava;
À cada sorriso teu,
Chorava lágrimas frias
E relembrava agonias
Que se iam do peito meu...

Mas sempre que te tocava,
Tua sombra se fastava;
Isso até que percebi
Que fora apenas um sonho
Pra tornar-me mais tristonho,
Pois jamais terei a ti!...

Renan Tempest