sexta-feira, 30 de agosto de 2013

O Último Suspiro da Donzela

(Summer Night – Inger on the Beach, de Edvard Munch)


O Último Suspiro da Donzela


Ai! que mais esperava neste mundo
No acordar da ilusão,
Sentindo a horrível aridez da vida
Gelar-lhe o coração!?
Barão de Paranapiacaba


I
Vagueava a donzela noite a dentro,
Em suas brancas vestes,
A pele pálida, e os cabelos negros,
Negros como ciprestes;

II
Triste! — ela lamentava ter nascido:
Chorava amargo pranto!
Triste! sonhara um viver de amores,
Em onírico encanto;

III
Ah! mas a vida amostrou-lhe do mundo
A ingente escuridão!
E os seus cândidos sonhos d'inocência
Desvelaram-se em vão!

IV
Ela vagava... acaso em busca de algo...
E talvez da verdade...
E o que é mais verdadeiro que a morte,
— replena liberdade — ?

V
Ao aproximar-se de um abismo,
Cismava tristemente:
"Ó Vida, o que és, além deste nada
Sombrio e decadente?

VI
Não sei... mas não mais desejo viver,
Pois mi'alma já não vive;
Foram todos tristíssimos e em vão
Os momentos que eu tive."

VII
Ela cismava como o "Manfred" de Byron,
Em profunda tristeza;
Porém trêmula jazia su'alma,
Absorta em incerteza...

VIII
O livro de sua breve existência
Na mente folheava,
Percebendo logo que cada folha
Ainda em branco estava...

IX
Queria morrer, mas temia a morte...
Até que... escorregou...
Quando caía, um lâmure suspiro
De su'alma ecoou...

X
Não sei o que ocorreu à pobre moça
Após a sua morte,
Nem se lhe choraram a não vivida
Triste vida sem norte,

XI
Mas gosto de pensar que ela encontrou,
Enfim, a paz sonhada,
E os seus lacrimosos sonhos de amor
A tornaram amada...

Renan Tempest

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Memories

(Amor e Dor, de Edvard Munch)


Memories


Our love is stronger than death.
Bram Stoker, Drácula



Sei que intentaste não me deixar só,
Só neste mundo — e outro mundo não há! —
Almejei tanto que ficasses cá,
Rezando aos deuses que tivessem dó...

Ah, mas — ai de mim! — agora és pó!
Lasso e flébil o meu coração está...
Mas sabes: nosso Amor não morrerá!
Há entre nossas almas tristes um nó...

Os sussurros e as lágrimas de ti,
Eu ouço, silenciosos, aqui,
Fazendo perdurar-me até o fim...

E as lembranças acalentam a dor,
E mantêm teu sorriso encantador,
Malgrado a distância, próximo a mim!...

Renan Tempest


*soneto inspirado na música "Memories", da banda Within Temptation:



sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Onírica Alegria

(Melancolia, de Edvard Munch)


Onírica Alegria

Quanto mais conheço o mundo,
menos ele me satisfaz.
Jane Austen; Orgulho e Preconceito



Indagam-me: "Por que tu és tristonho?
Por que versas só da vida a tristeza,
Enquanto no mundo há tanta beleza?"
E, tristemente, a responder me ponho:

"A vida não é mais que um negro sonho,
Onde reina a amaríssima frieza,
Morreram-se o amor e a delicadeza;
Não há motivos pra viver risonho."

"Amigo," — eles retrucam — sim, há mal,
Mas também há alegria. Nada val
Viver em eternal melancolia."

E eu respondo: "Se alguém não sente a paz,
Este mundo jaz triste e não me apraz;
Se nele tem mal, não alegria."

Renan Tempest